COMUNICÓLOGA
Doutora em Comunicação, com Pós-Doutorado em Sociologia da Infância

Palavras sobre passagem

Às vezes o choro cessa
às vezes o choro vem
tenho observado nesses meses
o que dizemos
quando falamos de morte
me inquieta saber
que dizemos que “perdemos”

não perdi minha vó
penso
perdi também
mas não só
gosto da imagem da criança: virou estrela
fundiu-se ao todo

escolhemos falar de brilho
para falar de morte
é a imagem dos grandes para os pequenos
vovó virou estrelinha
está lá no céu

gosto dessa imagem
porque a passagem da minha vó me fez criança
não quero ser adulta diante de um evento como esse
quero ser pequena


quero esta imagem que pode ser dada:
se estrela é
toda noite está no céu
não tem isto de perder
tem isto de fundir
ser tudo, todo

toda noite a encontro
às vezes nubla
mas ainda ali está
ora (rara) cadente
passa – vapt vupt

que constelação será essa, vó?

não sei bem dizer
nunca aprendi os nomes
e as localizações
mas, te digo,
gosto de olhar pro céu
e te ver

Por Anna Ortega

Fotógrafa e artista visual. Atualmente estuda jornalismo na UFRGS. Busca na imagem a possibilidade do encontro. Costuma olhar para o cotidiano à procura do miúdo do afeto, da casa e da memória. Tem pesquisado também as imagens afetivas mobilizadas pelas avós.

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Autor(A)

Juliana Tonin

Vida em Comunicação

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