COMUNICÓLOGA
Doutora em Comunicação, com Pós-Doutorado em Sociologia da Infância

Afinal, o que é escutar?

A escuta é uma das dimensões essenciais nos diálogos entre os seres humanos, muitas vezes pouco compreendida ou mesmo não praticada. Falamos muito sobre ela, mas, de fato, sabemos escutar? O que entendemos por escuta? 

Um breve alinhamento 

Na língua portuguesa existem duas palavras que, em suas definições nos diversos dicionários, são tratadas como sinônimas: ouvir e escutar. Mas, na verdade, como nos esclarece o prof. Paulo Flávio Ledur, em seu novo livro Escreva Direito: pecados da língua jurídica (2022), escutar é exercitar o sentido da audição, enquanto ouvir é a concretização da percepção do som.  Há uma grande diferença entre o ato de perceber pelo sentido da audição, e o ato de dar atenção a. Porém uma língua, como nos relembra o próprio Ledur, é construída de regras, não de dogmas, e os usos feitos pelas pessoas conferem seus sentidos. Então, sempre que mencionamos a escuta, socialmente queremos falar sobre a concretização da percepção do som, que seria o ato de dar atenção a. 

Tudo claro? Sim, caso nosso esclarecimento sobre escuta se resumisse ao entendimento do seu significado.

Escuta é ação

Entretanto, escuta não é um conceito, é uma ação. Escuta é um comportamento. E todo o comportamento pode, e deve, ser aprendido. Escutar parece fácil, mas não é. Isso porque exige que saibamos entrar em contato com o outro, que tem uma voz. E esse outro geralmente pensa, sente, entende, fala e escolhe de uma forma diferente da nossa. Por isso é uma ação que exige entrar em contato, mas, sobretudo, aceitar o outro.

Normalmente, em nossas experiências pessoais e coletivas, fazemos o contrário, pois não suportamos a diferença. Baudrillard escreveu diversas vezes sobre esse “querer apenas a si mesmo”: é o inferno do mesmo. Nessa ânsia, acabamos tapando nossos ouvidos, e/ou calando muitas vozes, de muitas formas.  

Formas da escuta

A escuta, em geral, pode assumir duas formas distintas. Por um lado, pode ser a Escuta sem fim, ou seja, sem finalidade, sendo um processo no qual o objetivo é a própria escuta, estar com o outro, estabelecer a comunicação no seu sentido pleno. Por outro, a escuta pode ser uma Escuta para, que se trata de um movimento no qual eu me desloco em direção ao outro para praticar uma escuta pautada numa necessidade prévia. Como a necessidade prévia é a de quem escuta, essa é uma ação complexa, pois é preciso evitar as expectativas e projeções do escutador, que contradizem a premissa de encontro com o outro. O desafio aqui é que muitas vezes não percebemos as nossas interferências. As intenções que a Escuta para pode assumir são diversas. Podemos escutar para resolver um conflito, para compreender motivações que levam as pessoas a determinadas situações, para direcionar escolhas, para conhecer outros cenários de vida, para compreender as pessoas, dentre tantas outras intenções que nos possibilitam fazer algo para melhorar a vida. As formas de materialização de seus resultados são igualmente plurais, sob diferentes suportes: verbais, textuais, imagéticos, sonoros.

Quando aprendemos a escutar?

Nós aprendemos a escutar lá na infância, ao sermos escutados. Infelizmente, a história das infâncias nos mostra que as crianças foram pouco escutadas ao longo do tempo, e recentemente estamos trabalhando muito para encontrar as formas dessa escuta, pois ainda não dominamos essa ciência.  Isso significa, então, que nós mesmos, os adultos, temos lacunas em nossas experiências de sermos escutados. E são essas experiências que conduzem as bases para os modelos daquilo que acreditamos e praticamos como escuta. Assim, atuamos a partir de formas muito rudimentares de escuta, e as reproduzimos despendendo grande esforço e sem clareza de seu procedimento, o que interfere diretamente em seus resultados. O caminho desse aprimoramento é longo, mas já estamos nele, pois queremos estar.

Buscar o exercício da escuta, assumindo a necessidade de seu aprendizado, é um movimento consciente para qualificar as relações humanas, fortalecer nossos vínculos, prevenir situações potencialmente traumáticas e melhorar a vida. Certamente o aprendizado da escuta, a partir de uma comunicação consciente, amplia nossos valores individuais e coletivos e nos torna mais humanos, tudo o que precisamos para um mundo verdadeiramente ético e amoroso. 

 Como podemos fazer, então?

Quais as melhores formas de praticar a escuta?  Como podemos compreender nossas próprias experiências de escuta vividas na infância? De que formas podemos identificar os nossos modelos de escuta? Como se dá o processo de escuta da criança? Essas são algumas das questões essenciais a serem mobilizadas para aprendermos, ou melhorarmos, nosso ato de escutar. 

Como escutar as crianças?

Quer aprender mais sobre escuta e compreender esses processos a partir de fundamentos teóricos e práticos? Participe do workshop Como escutar as crianças?. Programado em formato de imersão de um dia, fundamenta-se nos saberes da comunicação, em pesquisas e práticas, pois esses pilares são essenciais para conhecermos nossas dinâmicas, experiências passadas, nossos modelos atuais e os caminhos a seguir a partir desses reconhecimentos. Esse mergulho possibilita a consciência e instrumentalização para práticas de escuta tanto no ambiente profissional como familiar, e seja ela praticada entre adultos, ou entre adultos e crianças. 

Públicos

Direcionado para educadores, profissionais da saúde, profissionais do direito, pais, mães, cuidadores e demais interessados em compreender e qualificar sua comunicação com as crianças. Esse workshop também é indicado para todas as pessoas que desejam compreender, ou mesmo escutar sua própria criança, entender seus modelos, num exercício de conscientização interior, base ideal para as melhores escolhas diante do outro.

Informações 

Data: 29 de outubro, sábado

Horário: 9h às 18h

Local: KASHAI Eventos

Rua Dario Pederneiras, 566, Petrópolis, Porto Alegre

Mais informações e inscrições

E-mail: [email protected]

Whatsapp: 51 991660343 

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Autor(A)

ComCrianças

Comunicação em conexão com crianças.

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