COMUNICÓLOGA
Doutora em Comunicação, com Pós-Doutorado em Sociologia da Infância

Tempo de Tela

Como controlar o tempo de tela das crianças? É pergunta frequente na vida cotidiana de muitas famílias, mobilizando diálogos e preocupações.

Caminhos são recomendados pelo campo da Saúde, ao indicar o quanto, o tempo de uso para cada faixa etária, por exemplo, exceto para os adultos (o que certamente requer outro artigo). Neste, olhemos para as crianças e para essa orientação concreta que, conferindo bem nas práticas, parece estar distante do ideal. Talvez isto se explique porque a questão inicial resta em aberto:

— Como controlar, como?

A Comunicação integra esse debate. Ela contribui para a percepção da complexidade do fenômeno comunicacional do qual as telas fazem parte, bem como para a criação e mobilização de alternativas. Nesse sentido, alguns entendimentos primordiais se fazem necessários. E podemos começar por esse princípio: o que seria uma tela?

Parece estar longe de ser um filete em cima do qual se debruçam olhos hipnotizados (imagem que se costuma desenhar ao evocar telas e crianças). Telas levam a ambientes múltiplos: de aprendizado, entretenimento, socialização, trabalho, cidadania, pesquisa, consumo… E mobilizam ações: produção, criação, interação. Exigem tempos para usos diversos, dentre os quais muitos são positivos. Assim, são muitos os tempos, e diferentes, que precisam entrar na conta.

Contudo, as telas também fazem parte dessa sociedade e cultura na qual impera um sistema comunicacional que exige regulação (além dos tempos!), e expõe a diversos tipos e níveis de riscos. Então se torna imperativo conhecer o sistema que orbita as telas, para realizar uma contabilidade promotora de ações que atinjam metas de equilíbrios. Um equilíbrio possível poderia ser o de alcançar o horizonte no qual há preparo coletivo ao invés de controle, e adultos sejam dispensados de atuar como “policiais” ou “espiões” de suas crianças.

Ainda que esses elementos iniciais se mostrem suficientes para nos debruçarmos interdisciplinarmente sobre o tema, algo requer nossa atenção de forma emergencial. Sabemos que viver de acordo com o tempo presente é essencial para a saúde integral, mas temos de atentar para nosso passado, especialmente o recente. Voltemos: era impensável aceitar, antes da pandemia, a ideia: “fiquem em telas, que são seguras; estar com pessoas, na rua, pode ser fatal”.

Por força das circunstâncias, visceralmente, confiamos nas telas e desconfiamos das pessoas, nós nos afastamos interna e externamente. As telas tiveram de virar refúgios, foi preciso. E crianças nasceram e cresceram nesse contexto. Se calcularmos seus tempos de vida, rapidamente reconhecemos que algumas passaram um terço, metade, ou mesmo todo o princípio de sua vida nessa atmosfera, gerando, dessa forma, suas constelações significativas. É profundamente marcante.

Esse tempo passou.

E o que restou? Bem, ainda não temos o balanço geral. Mas o que se observa é um comportamento de extravasamento de tensões em muitos níveis. Uma de suas expressões se materializa na generalizada constatação de que as crianças estão com dificuldades de convívio nas escolas (em casa também!), “muito mais do que se via antes da pandemia”, é o que se escuta.

Sim. Estar junto em carne e osso, seguro, aberto e disponível ao outro, ainda está áspero para crianças… e para os adultos! Temos de atuar efetivamente para fazer isso passar também, desconstruindo o clima de medos que flui pelos dutos subterrâneos de nossas relações.

Talvez a medida mais eficiente para cuidar do “tempo de tela”, agora, no pós-pandemia, seja a de aumentar, em nome do resgate da presença e contato físicos seguros, do convívio face a face, do afeto, da ternura, da gentileza, da alegria, do respeito mútuo, da confiança e dos valores morais e éticos, o “tempo de pessoas”.

Assim estruturaremos novas e humanísticas fundações para nossas relações.

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ComCrianças

Comunicação em conexão com crianças.

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