COMUNICÓLOGA
Doutora em Comunicação, com Pós-Doutorado em Sociologia da Infância

Maternidade incluída

Nunca quis ter filhos. Meu marido, sempre.

Exerci soberania de decisão até engravidar.

— Agora casa. Agora tenha filho. Agora um irmãozinho para o filho…

Minha família festejou, pois aderi ao coro social.

Sem querer, a gestação atravessou-me como relâmpago.

Escutei o silêncio do coração do meu bebê antes mesmo das doze semanas. Foram trinta longos dias assim: eu nele, ele em mim. Eu, viva. 

Aguardei que as forças da natureza se encarregassem de nos separar. Sem sucesso.

Recorri às forças técnicas, e meu trânsito hospitalar para essa imposta despedida foi um dos maiores traumas que já vivi. Custou-me a partida de nosso sonho recém-sonhado.

Contudo, jamais tive opção de não ser forte; é minha forja.  

Nasci quando minha mãe completou dezesseis anos e foi expulsa de casa. Levou-nos para morar com uns tios em Porto Alegre, e ganhou sua vida de mulher negra, mãe solo e doméstica.

— Meu sonho é ser pai e levar a criança para um laço!

— Mas tu nem sabes se teu filho vai gostar de rodeio. E se for roqueiro?!

Meu marido e eu calamos até mesmo aquelas remotas conversas em que ele me seduzia para termos um bebê.

Meu não era convicto. Não havia espaço para uma criança. Eu percorria muitos territórios; era uma nômade. Professora de Educação Especial concursada há dez anos, eu me desdobrava: Osório, Tramandaí, Canela, Pinhal, Capivari…

— Levar a criança para cá e para lá? — Não!

 — Se não é o teu chão, segue tua vida. Tu não és árvore, não crias raiz. — Apoiou-me a amiga.

E o sim que me interpelou lançou-me para o destino de uma dor nunca imaginada.

Por sorte, Deus fala comigo. Consegui compreender o que Ele queria me dizer com tudo aquilo.

— Queres?

Brotou em mim a certeza de que a maternidade é possível.

Passado o luto, engravidei de gestação planejada. Os três primeiros meses foram de entusiasmo coletivo; acompanhamentos, providências e planos ganharam corpo no seio familiar.

— Há uma síndrome! Temos de fazer um exame de rastreio…

Assim… De repente! Desenvolvimento, peso, ossos; tudo parado, menos o cérebro.

— … e, conforme a síndrome, precisaremos encerrar a gestação. — Selou a médica.

Uma bomba explodiu na minha cabeça.

— Vamos buscar segunda opinião.

Partimos com urgência: meu marido, o bebê, os escombros e eu.

— Sim! Há uma síndrome, isso é certo.  

Confirmou o especialista em medicina fetal.

— Se for Síndrome de Down, estás no lucro, vais conseguir pegar teu bebê no colo. Se for qualquer outra, teremos de tirar, pois ele poderá viver dez, quinze horas, e o coração vai parar.

— Nãããão! Não quero isso para mim!

Quinze dias em meio à névoa.

Espera.

Consulta.

Espera.

Marcação do exame.

Espera.

Vinte e um mil e seiscentos minutos chorando.

O chá havia nos revelado nossa menina, mas a notícia da síndrome congelou os preparativos do quarto. As roupinhas compradas pela Internet chegavam toda hora, alheias a tudo!

A bebê mexia-se sem parar.

A vida não parava. Fomos ao batizado do meu afilhado; evento imperdível. Lembro-me de testemunhar meu marido chorar enlouquecidamente dentro do carro, por meia hora, antes de entrar. Viver nos pesava. E nossa única hipótese era a de interromper a gestação.

Fiz o exame. O médico prometeu ligar tão logo chegasse o laudo, em dois dias, no máximo.

— Não! Não vamos. E se o médico ligar?

— Que diferença vai fazer? Já compramos os ingressos há semanas, é show nativista, todo mundo sentado! — Eu tentava convencer meu marido a não desistirmos de tudo…

A caminho do show, toca o telefone.

— Tenho uma boa notícia! É Síndrome de Down!

R e s s u s c i t a m o s.

— Lá em dezembro, teu bebê vai nascer bem.

Reavivamos a boa espera. Eu, gestante, passei a estudar, estudar… porque trabalhava há anos com a inclusão, mas dos outros.

Saber que teria essa experiência dentro da minha casa levou-me a preparar as condições: família, terapias, medicamentos, especialistas, plano de saúde; e consegui muitas coisas.

Sete de novembro de dois mil e vinte e dois, eu peguei minha menina no colo pela primeira vez. Tornei-me, enfim, mãe.

Atípica e ativista.

Por quê?

Olha, acredito que não existam tantas pedras no caminho em uma maternidade típica. Quando aparecem, são jogadas para o lado, ou puladas com mais facilidade. Na atípica, a gente lida com icebergs: consegue a vaga, mas não o monitor, nem a professora, a turma não acolhe… são batalhas diárias em diferentes fronts. É necessário se afirmar o tempo todo. Parece que tenho de estar sempre com um papel na mão para fazer valer os direitos. Cansa!

— Tá! Tinha de ser logo comigo, o primeiro caso de síndrome na família?!

Os prejuízos são muitos, e cotidianos. Qual seria o lucro mesmo?

Certa vez ouvi uma conversa de uma professora que falava sobre a morte para uma turma de primeiro ano:

— Profe! Mas se Deus cuida de tanta gente, é atento, vê tudo, por que as pessoas morrem?

— Por que, de vez em quando, Deus dá uma piscadinha… e acontecem essas coisas.

Deus deu uma piscadinha comigo. Não romantizo, mas sei que Ele dá os fardos para quem consegue carregar. O que não me impede de pensar que pode errar seus cálculos na divisão dos pacotes, às vezes.

Mas não me arrependo. Carrego, sim, a culpa de ter cogitado interromper a gestação quando soube da síndrome.

Eu dou conta por que muitas pessoas me ajudam a acreditar que sim: família, amigos, rede de apoio. Divido o peso de minhas cargas com muitos.

Talvez a piscadinha d’Ele, de merecida distração, seja o pestanejar para o nascimento da autêntica comunidade.

E minha filha vai chegar lá. Quero que todas as crianças cheguem. Por isso eu luto todos os dias. O acesso a terapias básicas faz toda diferença, e movimento o que for preciso para o cumprimento de leis, fomento de recursos, pois há muita desigualdade na diversidade.

O para onde minha filha vai é o mesmo lugar das crianças típicas.

— Que faculdade vai fazer? Vai morar sozinha? Vai chegar? O que fazer para estimular?

Lembro-me de questionar tudo isso quando descobri a síndrome. Porque a gente cria um filho para o mundo. Quer que viaje, faça intercâmbio, tenha vínculos, seja feliz. Quero que minha filha não seja limitada pela síndrome. Pode nem fazer faculdade, mas porque não quis. Que as viagens não sejam impedidas a ela por falta de conhecimento, locomoção… Que seja escolha de fazer ou não por si mesma, jamais desista por imposição dos outros. 

Sabe… Quero que ela tenha amigos que a abracem quando chegar na escola, tenha para quem distribuir os convites de seu aniversário…

— Mãe! Hoje vou fazer um pousão na casa da colega.

— Vai! Vai lá! Está tudo bem.

Desejo poder responder assim para ela; e que isso seja normal.

Sempre fui acolhedora, coloquei-me muito no lugar de mães atípicas. Mas hoje sou muito mais. Ganhei uma parte nova, a capacidade de sentir a dor do outro, de compreender aquele olhar.

Vislumbrava a vida sem a experiência da maternidade e fui convocada, vesti a camisa e entrei em campo. O que ganhei? O que perdi?

Perdi a ilusão de que podemos controlar a vida com um par de mãos.

Mantive a essência de desbravar o mundo, conhecer pessoas, mas também perdi a expectativa de ter de criar raízes, pois percebi que crio conexões, vínculos fortes, e eles transpõem fronteiras.

Agora sou Mulher, Educadora e Mãe, que faz questão de colocar a filha na mochila, inclusive.


Juliana Tonin

Apoio e revisão

Editora AGE – Prof. Paulo Flávio Ledur

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Contos inspirados em experiências reais.

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