COMUNICÓLOGA
Doutora em Comunicação, com Pós-Doutorado em Sociologia da Infância

Sobre Viver

Tocando em frente.

Um nasceu preto, pobre, perdeu a mãe muito cedo e estudou como pôde. O outro nasceu pobre, ficou órfão e ao relento aos nove anos.

Condenados?

Machado de Assis e Teixeirinha, respectivamente.

O primeiro tornou-se um dos escritores mais relevantes da literatura mundial. O segundo firmou-se a cantar em virtude do sucesso de sua primeira música “Coração de luto”, dedicada à sua mãe, e tornou-se celebridade da música gaúcha.

O que os conecta aqui?

É mais do que a sincronicidade de ter visitado a exposição Singular Ocorrência (184 anos de Machado de Assis), na Biblioteca Pública Estadual de Porto Alegre, e de, poucos dias após, ter lido, no Almanaque Gaúcho do Jornal Zero Hora, a matéria “Teixeirinha amanhecia cantando”, em virtude da data em que completaria seus 96 anos. 

Também supera qualquer intenção de fazer referência às suas artes, ou mesmo a pretensão de identificar a pobreza como caminho para algum sucesso.

Não.

Foram eles que vieram até mim. 

Estão perambulando nas minhas nebulosas.

Reconheço neles percursos de existências que tiveram reveses desde a infância; duríssimos.

E a qualidade de suas artes, ou mesmo o alcance de seus brilhos pessoais reluzem menos, neste momento, do que o fato de terem assumido suas histórias, por inteiro, e carregado a si mesmos mundo afora, com todos os seus pedaços.

Não parecem ter ficado sentados na sarjeta da própria miséria, de braços cruzados, semblante emburrado:

— Oh, vida! Como te atreveste a fazer isso comigo? Quem pensas que és?

Fato que talvez não os tenha blindado de sentir que Deus pudesse tê-los abandonado, vez ou outra; e de chorar.

Faz parte. Parte.

O que seria da primavera se as árvores se magoassem do inverno?

Eles parecem ter escolhido, e sustentado, a humildade de não se ressentirem.

Aceitaram os fragmentos da vida que lhes tocou.

Sem concordar, tampouco discordar, menos ainda irrigar cobranças por cada lágrima despejada.

Calcula o prazer que tive, como as li, reli, beijei!

Este também era Machado de Assis, respondendo à carta que recebera de sua Carolina.

Teixeirinha amanhecia cantando. Mas, bah! Que título foi capaz de inspirar ao jornal!

Amar, escrever, beijar cartas, cantar…

Claro que não.

Porque não é sobre amar, escrever, beijar cartas, cantar…

Embora sim, sim, sejam mel puro.

É a pura arte de manter o coração macio.

E tocar em frente.

Malgré tout!

É sobre viver a vida, que é maior, não decifrável nem mansa.

Imagem: banco de imagem

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Autor(A)

Videira

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